A Beleza do Horror

Uma nova onda de filmes de terror subverte as regras clássicas do gênero e mexe com o nosso núcleo mais íntimo: a família.

(Matéria originalmente publicada na décima primeira edição da Revista Ipê. Leia na íntegra aqui.)

Eu me lembro de um episódio quando era criança, minhas primas de fora, alguns anos mais velhas do que eu na época, vieram passar as férias de natal. À tarde ficávamos sozinhas na casa dos meus pais, onde havia uma televisão por assinatura, daquelas em que é possível comprar o filme por pay-per-view. Nos lançamentos, o novo filme com o Freddy Krueger. Como boas transgressoras de regra, compramos o filme escondido dos meus pais (como se eles não fossem descobrir quando chegasse a conta). Fiquei várias noites sem dormir.

Uma das maravilhas do terror, para mim, é essa capacidade de mexer com a gente. Quem odeia o gênero acha que já há coisas horríveis demais no mundo para nos submetermos, voluntariamente, a mais. Quem ama anseia por essa injeção de adrenalina no efeito cinematográfico da antecipação do horror. É nesse suspense, nos planos nos quais a gente acha que vai acontecer alguma coisa, antes mesmo de acontecer, que reside um momento mágico, sinestésico e corporal, que uma imagem em movimento é capaz de nos fazer sentir.

Vampiros, zumbis, lobisomens, alienígenas, crianças bizarras, bruxas, demônios, fantasmas, mascarados sanguinários, monstros mutantes e fenômenos inexplicáveis. São diversos os personagens que permeiam o universo dos filmes de terror, brincando com os nossos medos mais profundos. Mas, no final das contas, não importa qual é o mal da vez. O gênero age no susto, e é bem sucedido muito mais pelo que ele esconde do espectador, do que pelo o que ele mostra.

Atualmente um dos mais clássicos gêneros do cinema de narrativa clássica, o terror surge já nos primórdios do cinema. Passou por personagens clássicos da literatura, foi sucesso entre as produções “lado B”, inovou com inúmeras técnicas cinematográficas, e se consolidou nos anos 1970 e 1980 com algum dos mais renomados filmes de terror que até hoje inundam o mundo da indústria cultural, até chegar a uma recente onda de remakes.

Mas é de uma nova geração de filmes a que eu me dedico nessa coluna. Após anos se acostumando com as estratégias utilizadas pelos diretores para nos fazer arrepiar, gritar ou pular do sofá, o espectador começou a ficar entediado – ou os realizadores ficaram sem criatividade? Demorou um pouco, mas cineastas de uma nova geração responderam, com muita quebra de expectativa e subversão de regras clássicas. E é nessa hora que o medo (re)aparece de uma maneira intensa, lúdica e de forma a nos fazer questionar o porquê de nos submetermos a isso: “eu sei que vai acontecer alguma coisa, ou não, não vai, ou vai”.

Ficam, portanto, minhas indicações de três filmes que brincam com o espectador nessa “nova onda” do terror e mais algumas dicas que não poderiam ficar de fora: um clássico do terror e um trash brasileiro. Só após fazer a lista percebi: a família é um núcleo central em quase todos eles, e um fio condutor que os conecta, chamando a atenção para onde realmente reside o horror – em algo maligno ou na expressão dos nossos comportamentos mais reprimidos?

Minhas indicações:

The Babadook – (2014, Dir. Jennifer Kent, Australia) Uma mãe solteira luta para criar sozinha o filho, que tem, constantemente, medo de monstros. Após ler um livro chamado “O Babadook”, sobre um monstro que se esconde nas partes escuras da casa, o medo passa a ter sentido. Após assistir ao filme, fiquei dias olhando de forma suspeita para os cantos da minha casa.

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It Follows (Corrente do Mal) – (2014, Dir. David Robert Mitchell) O filme brinca com um dos jargões de filmes de terror, que é a punição/morte para aqueles adolescentes que fazem sexo. Uma garota, após ter relações com um jovem, passa a ser perseguida por uma força sobrenatural e seus amigos tentam livrá-la desse mal.

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The Witch (A Bruxa) – (2015, Dir. Robert Eggers) Sabe aqueles filmes que quando acabam você acha que odiou, mas fica pensando nele durante dias e chega à conclusão de que na verdade ele é genial e você amou? Então. É esse. Um filme que encanta pela direção de arte e de fotografia e que nada tem de semelhante aos filmes de bruxa aos quais estamos acostumados. Em 1630, nos EUA, uma família religiosa se muda para um lugar afastado. Após o recém-nascido sumir misteriosamente, eles tentam encontrar quem é a bruxa que o levou.

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The Shining (O Iluminado) – (1980, Dir. Stanley Kubrick) Uma adaptação de uma história de mesmo nome do mestre da literatura de horror, Stephen King, são diversas as teorias de fãs por traz das significações do filme. Um dos meus filmes preferidos, um clássico dirigido por um dos melhores diretores da história do cinema, não podia ficar de fora. Um casal e seu filho passarão a temporada de inverno (e muita neve) tomando conta de um hotel.

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A Noite do Chupacabras – (2011, Dir. Rodrigo Aragão) Considerado um dos “herdeiros” de José Mojica, o Zé do Caixão, o diretor brasileiro Rodrigo Aragão é adepto do trash, um estilo cinematográfico que brinca com as regras clássicas e preza pelo “mal feito”. Muito sangue, vísceras e mortes bizarras compõem as cenas de uma rixa entre duas famílias no interior do Brasil, que acaba em tragédia e perseguição, por algo que até então era somente uma lenda – o Chupacabras.

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