O amor nos tempos da máquina

Quais os limites da inteligência artificial e como o cinema tem retratado as relações com as máquinas?

 

Matéria publicada originalmente na 12a edição da Revista Ipê

 

Os primeiros filmes de ficção científica no cinema surgem com o próprio nascimento dessa arte, que veio muito mais como uma curiosidade tecnológica do que como uma forma de contar histórias. Foi só com o passar do tempo que o cinema se desenvolveu como uma linguagem e como expressão artística. Em 1902 um artista circense que se tornava cineasta, o Georges Méliès, fazia o primeiro filme explorando temas científicos, com viagem extraterrestre e seres de outros lugares. “Viagem à Lua” foi, se não o primeiro, o mais conhecido curta a explorar a temática na chamada época do “primeiro cinema”.

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A partir daí, a história da sétima arte está recheada de ficções científicas que ficaram marcadas no imaginário popular. Dentro desse gênero, um tema específico se destaca: a inteligência artificial. Pensado em obras de literatura, agora o cinema também refletia essa relação incômoda entre seres humanos, máquinas e robôs, talvez como forma de entusiasmo ou medo do que poderia surgir em uma sociedade que se industrializava tão rapidamente.

Desde a obra-prima de Fritz Lang, Metrópolis, de 1927, o cinema viveu relações de medo, amor e ódio com os robôs. Até a década de 50, mais ou menos, a história contada era, normalmente, a de um robô maldoso, que queria tomar conta da terra, ou de apocalipses tecnológicos. A partir dos anos 60, a ficção científica nos filmes passa a explorar de forma mais complexa essas relações.

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É em 1968, com 2001: Odisséia no Espaço e o computador inteligente HAL, que o diretor Stanley Kubrick inova nos conceitos de inteligência artificial: até que ponto a máquina pode ser autônoma em seus pensamentos e ações? Uma Era máquina X ser humano, em que, quase sempre esta é superior à nossa espécie, é inaugurada.

Os anos 70, 80 e 90 vivem uma espécie de amor aos robôs. Um antropomorfismo tecnológico toma conta das telonas, com os simpáticos R2D2 e C3PO, do universo Star Wars, ou com os clássicos de ação Exterminador do Futuro e Robocop. O filme Blade Runner, de 1982, do mestre Ridley Scott, nos apresenta dilemas sobre a (im)possível paixão entre humanos e androide[1].

 

Nos anos 2000 três filmes hollywoodianos também se destacam: a animação fofa do Wall-E, Inteligência Artificial e Eu, Robô, que por sua vez discute questões éticas do comportamento das máquinas que conseguem pensar por si só.

 

O futuro a partir de 2010

Dois filmes que discutem os limites da inteligência artificial, suas relações com os seres humanos e a possibilidade ou não de uma máquina amar, chamam a atenção mais recentemente. Ambos chegam ao limite do que podemos imaginar para inteligências artificiais.

O primeiro deles é o Her (Ela), de Spike Jonze. Vencedor de melhor roteiro no Oscar de 2014 (e outros 76 prêmios) o filme é extremamente complexo e levanta muitas e muitas questões sobre a possibilidade real de se amar um não-ser, uma entidade não corporal, e a dessa entidade ser livre e amar ou não de volta um ser humano. Poderia algo programado por códigos possuir consciência, intuição, sentimentos, sentimentos que ainda não foram nomeados?

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Interpretado por Joaquin Phoenix, Theodore é um escritor de cartas profissional que acaba de passar por um divórcio e se sente totalmente solitário e depressivo. Sem saber lidar muito bem com o universo ao seu redor, Theodore compra um sistema operacional de inteligência artificial, que se dá o nome de Samantha. Os dois passam de uma relação de prestação de serviço a algo muito mais “humano”. É necessário uma presença física para amar? Qual o limite da onipresença de um sistema operacional? Uma ficção científica com drama e romance, Her é daqueles filmes que nos deixam pensando durante dias.

O segundo filme que destaco é o Ex Machina (Instinto Artificial), do diretor estreante Alex Garland. Vencedor do Oscar de Melhor Efeitos Especiais de 2016, o filme explora o comportamento humano e as convenções sociais. Enquanto Her explora o não-corpo, Ex Machina se foca na figura do androide, de um corpo robótico com inteligência artificial capaz de compreender as mais ínfimas nuances da linguagem dos seres humanos.

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Um programador é selecionado para participar de um teste que avaliará a qualidade de uma inteligência artificial, a robô Ava. Mas… quem ali está sendo testado? Qual é o teste último para avaliar a perfeição e o sucesso de uma inteligência artificial? Será que um robô consegue realmente amar ou será que tudo não passa de códigos programados?

Dois filmes que abordam o mesmo assunto por óticas diferentes, mas ambas com um resultado semelhante. O que virá agora? Quais as próximas fronteiras?

 

[1] Termo utilizado para descrever robôs em forma de homens.

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