Caindo na estrada

Coluna publicada originalmente na Revista Ipê!

 

Como os road movies ficaram no imaginário popular como sinônimo de liberdade.

Sabe aquela vontade incontrolável de viajar, de descobrir novos lugares, de conhecer novas culturas e pessoas? Pelo menos de vez em quando, sentimos que precisamos sair do nosso lugar de conforto ir em busca de novas experiências. De acordo com a Wikipedia, esse desejo tem nome: “wanderlust”. A palavra vem do alemão, “wandern”, que significa “caminhar”, e “lust”, cujo sentido é “desejo”.

No universo fílmico esse desejo é presente em muitos filmes que marcaram gerações e ficaram guardados no imaginário do público como soluções para fugir de uma vida opressiva, ou como sinônimo de liberdade. São os chamados “road movies”, ou filmes de estrada, que exploram o papel da estrada como um refúgio, como um elemento simbólico que representa não só esse desejo por viajar, mas pela liberdade e pelo desconhecido.

A jornada em si já tem esse seu papel na literatura há muito tempo – desde a Grécia antiga, com a Odisséia, de Homero, passando por clássicos como As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain ou Na Estrada, de Jack Kerouac, pautando a geração beat.

No cinema, as primeiras indicações de uma jornada, nesse sentido de uma viagem redentora, surgem nos anos 40, com filmes como Vinhas da Ira (John Ford). No entanto, como gênero cinematográfico, o road movie ganha seu espaço somente no final dos anos 60, junto a movimentos de contra-cultura e rebeldia, que ansiavam por desprender-se de convenções sociais e culturais da época.

Um dos maiores símbolos dessa época foi o Sem Destino (Easy Rider; Dennis Hopper, 1969), que trouxe a ideia da motocicleta como liberdade – e que, até hoje, está no imaginário popular como um estilo de vida.

Em termos de inovações cinematográficas, o gênero trouxe novos movimentos de câmera, uma trilha sonora regada a rock n’ roll, mas, acima de tudo, uma montagem e uma narrativa mais aberta, sem tanta causa e efeito, permitindo-se finais mais abertos e personagens mais à deriva dos acontecimentos.

A popularização do road movie com certeza teve a ver com a do carro e do veículo próprio. Nos anos 70, acontecem algumas releituras dos filmes de estrada que exploram o “dirigir” e a jornada dentro da própria cidade, como Taxi Driver (Martin Scorcese, 1976). Outro clássico foi Thelma e Louise (Ridley Scott, 1991), que fez parte também de um movimento de libertação feminina.

Mais recentemente, essa narrativa de estrada ganhou excelentes adaptações, ou “recriações”, da literatura para o cinema, em Na Estrada (Walter Salles, 2012) e Na Natureza Selvagem (Sean Penn, 2007). Ambos exploram esse desejo de fuga da sociedade, mas também de redescobrimento de si mesmo.

No Brasil, esse imaginário também está presente em grandes filmes como Central do Brasil, do amante de road movies, Walter Salles, O Céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006) e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, 2009).

No entanto, no Brasil, mais do que um ato de rebeldia, a jornada está, por vezes, como uma redescobrimento do próprio país e de sua identidade, levantando questões como quais são os nossos brasis possíveis? Onde é que eles se encontram?

Por fim, os road movies trazem esse desejo de sair do lugar, essa wanderlust. Afinal, viajar é o fim em sim mesmo – não chegar a algum lugar, mas viver o que a estrada e a jornada têm a oferecer. Nas palavras de Guimarães Rosa, “Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

Minhas indicações para essa edição, para além dos filmes citados, perpassam um pouco de cinema brasileiro, de cinema independente e um filme atual de humor um tanto ácido.

TERRA ESTRANGEIRA
(Walter Salles, 1995)

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Um dos melhores filmes brasileiros desse diretor fantástico que já contabiliza, pelo menos, cinco road movies na carreira, Terra Estrangeira repensa a própria questão da identidade brasileira. Estrelando Fernanda Torres, o filme conta a história de um brasileiro que, após a morte da mãe, decide conhecer sua terra natal, Portugal. Lá conhece a personagem vivida por Fernanda, e passa a viver experiências inesperadas.

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS

(Marcelo Gomes, 2005)

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O cinema brasileiro contemporâneo tem explorado o sertão em busca também dessa identidade brasileira que, muitas vezes, fica de fora do que é mainstream. Um alemão viaja pelo sertão brasileiro, em 1942, tentando vender aspirina para os moradores das pequenas cidadezinhas. Para isso, exibe filmes e propagandas em seu projetor. Na estrada, acaba fazendo amizade com o nativo Ranulpho, interpretado por João Miguel.

ESTRANHOS NO PARAÍSO
(Jim Jarmusch, 1984)

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Um filme que explora esse estado à deriva dos personagens: um não lugar de satisfação e insatisfação, de não saber para onde se está indo, de deixar-se levar pelos acontecimentos bizarros da vida. Um filme independente e de baixo orçamento, que foi ovacionado de pé no Festival de Cannes no ano de seu lançamento. Não dá para não lembrar da imagem de um trio de outsiders, de rebeldes (?) que não se encaixam, como em “Bande à Part” (Jean-Luc Godard, 1964) ou em “Jules et Jim” (François Truffaut, 1962).

PEQUENA MISS SUNSHINE
(Jonathan Dayton, Valerie Faris, 2006)

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Little Miss Sunshine surpreende por sua leveza, pelo seu humor ácido, pela confusão familiar e pela dificuldade de encarar a vida como ela é. Enquanto os adultos da família de Olive tentam lidar com suas frustrações pessoais, a garota (que não se encaixa nos padrões tradicionais de beleza) se inscreve em um concurso de Pequena Miss na California. Os pais decidem que toda a família irá levá-la em uma Kombi. No caminho, Olive vai ensaiando seus números para apresentar e o caos vai tomando conta da viagem. A maior surpresa é a apresentação de Olive!



Marina Alvarenga Botelho
Jornalista e especialista em cinema

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