Oscar 2017: Hell or High Water

Por que é importante estarmos ligados nos filmes do Oscar?

De forma alguma o Oscar é um evento absoluto ou seus filmes são sempre incríveis. Grande prova disso é que Titanic (James Cameron, 1997) ganhou prêmio de melhor filme, dentre muitas outras premiações, por falta de uma palavra melhor, que foram escrotas. Vez ou outra nos deparamos com filmes que tenham realmente aquele “uau”, aquele algo mais, que é o que provavelmente esperamos, como o Room (Lenny Abrahamson, 2016).

Mas, estar antenado nos filmes do Oscar, para quem gosta de cinema (seja ele cinema brasileiro, cinema autoral, cinema de gênero, qual for), é prestar atenção no que está sendo pautado pela maior indústria cinematográfica do mundo. O que podemos perceber em termos de tendências criativas (ou nada criativas), o que podemos esperar.

Pensando nisso, tentarei (como todo ano, e sempre fracasso), assistir a todos os indicados antes do grande evento, e escrever, pelo menos, sobre os indicados a melhor filme, até como uma maneira de fazer um compromisso comigo mesma e o blog (que estava meio morto por falta de tempo).

Isso nos leva ao primeiro filme, escolhido randomicamente.

 

Hell or High Water (SPOILER FREE)

Título em português: A Qualquer Custo

Direção: David Mackenzie

Ano: 2016

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Acima de tudo, Hell or High Water é um filme sobre ressentimento (e aqui roubo o insight do meu marido, que não é da área mas por ficar menos preso a questões técnicas/teóricas consegue lançar olhares inesperados).

Logo na primeira cena, um traveling panorâmico revela uma mise-em-scéne bem pensada e nos apresenta aos dois primeiros protagonistas do filme: dois irmãos que resolvem assaltar uma cadeia de banco em cidades pequenas do Texas para pagar a uma dívida que devem ao próprio banco. Um deles é recém-saído da prisão e o outro não tem passagem pela polícia e cuidava da mãe doente, que falecera há pouco.

Em um clima meio Bonny&Clyde os irmãos Tanny e Toby assaltam banco atrás de banco, regozijando-se após cada assalto bem sucedido. De outro lado, o xerife (bem) interpretado por Jeff Bridges e seu parceiro tentam, de forma inteligente, prever quais seriam seus próximos passos.

A paisagem árida reflete os momentos vividos ao redor de todo o mundo: crise. Casas e terrenos à venda, ofertas de empréstimos de um lado e a possibilidade de sucesso do outro, com extração de petróleo.

São diversas as discussões que o filme tenta se propor – talvez de forma superficial e sem problematizar – mas, ainda sim, válidas. Do ressentimento dos índios Comanches com aqueles que lhes roubaram as (vidas e as) terras, ao velho turrão norte-americano eleitor de Trump que, perante um assalto feito por brancos de olhos azuis solta um “Vocês estão assaltando o banco? Mas vocês nem são mexicanos”.

Ao final, estamos torcendo muito mais pelos bandidos do que pelo mocinho (o único mocinho é caracterizado pelo parceiro de Bridges, já que o xerife é um escroto que não percebe que suas piadinhas sobre índios machucam o parceiro, e só no final vai se ressentir).

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Embora entre os irmãos também haja essa mágoa pendente, há uma redenção na relação entre eles, enquanto na do xerife e seu parceiro, a redenção é menos visível. Sem deixar spoilers, esse sentimento também pauta as cenas finais do filme, no rendevouz do xerife com Toby, de Toby e sua ex-mulher. Enfim, um filme que se propõe muito mais a explorar as relações entre as pessoas os rancores que nunca saram e as consequências das decisões tomadas no “aconteça o que acontecer”.

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No ritmo da perseguição, Hell or Highwater se inspira em um clima meio “Onde os Fracos não tem vez”, mas sem uma aproximação próxima de twists e genialidades à la Irmãos Cohen. O auge, pra quem gosta de ação, talvez sejam as cenas de perseguição, com o Texas reagindo à maneira Texas de ser: fazendo justiça com as próprias mãos, e se ferrando por isso.

À primeira vista, não oferece nada de novo em termos técnicos ou narrativos, e as primeiras cenas já prometem algo conhecido: um western moderno. Mas ao longo de suas relações, do foco nos personagens e em suas caracterizações, deixa vivo uma releitura contemporânea do gênero, propondo-se como uma boa obra de entretenimento.

 

 

 

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