DIVAS, DIVINAS, ELENAS E BARONESAS – As mulheres do cinema brasileiro – onde elas estão?

Originalmente publicada na Revista Ipê.

Dedico essa coluna a todas as mulheres: às que nasceram e às que se tornaram.

Por que é importante discutir a situação da mulher no cinema e, mais ainda, no cinema brasileiro? Quais são os números das brasileiras diretoras que efetivamente conseguem levar seus filmes às salas comerciais de cinema? E os das que conseguem chegar aos circuitos de festivais? Existem papéis na realização cinematográfica que já são “naturalmente” de mulheres? A quantos filmes de diretoras mulheres você assistiu no último ano? Quantos filmes com mulheres fortes protagonistas? Quantas mulheres críticas de cinema você conhece ou já ouviu falar?

Abro essa coluna com tantos questionamentos após reflexões que foram geradas na 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes, um dos principais festivais de cinema do Brasil, e que abre o calendário de eventos de cinema todo ano. A Mostra, produzida pela Universo Produção, aconteceu entre os dias 20 e 28, em Tiradentes-MG, e recebeu 33 filmes dirigidos por mulheres, dos 157 longas (21% do total), sendo que dentre os selecionados pela curadoria do festival, foram 12 obras, equivalendo a 41%. Número ainda muito desigual dentre os inscritos, mas um pouco mais expressivo que nos anos anteriores.

No cenário comercial, a discrepância é ainda maior. Dos 20 filmes brasileiros de maior bilheteria até o terceiro trimestre de 2016 , apenas três foram dirigidos por mulheres. São eles: “Um namorado para minha mulher”, de Júlia Rezende, “O Começo da Vida”, de Estela Renner e “Mãe só há uma”, da genial Anna Muylaert. Seria muito inesperado dizer que nenhuma delas é negra?

O que esses números significam: que homem nasce melhor diretor do que mulher ou que temos um grande problema de oportunidades e incentivo na indústria cinematográfica brasileira? A resposta é clara: escondido por trás da famigerada “meritocracia” está a falta de oportunidade para mulheres. Ouvindo causos de quem trabalha dentro da indústria brasileira, há um pensamento retrógrado de que à mulher determinados papéis são melhores, como produtora, diretora de arte, assistente de direção ou assistente de fotografia, e que raramente chegam às posições de maior papel autoral ou mais altos na hierarquia.

Pensando em tudo isso, as únicas reações possíveis às diversas desigualdades que perpassam os campos cinematográficos são: mulheres do mundo, nesse mês internacional das mulheres, uni-vos! Na realização de filmes, nas equipes, nos debates, nos estudos, nas nossas representações nas telonas, no incentivo a ver filmes de outras mulheres também. Ficam, portanto, minhas indicações, que não poderiam ser de filmes menos políticos. Sei que são filmes que provavelmente chegarão a poucas salas comerciais de cinema, e talvez mais em circuitos de festival ou salas de “cinema de arte”. Hoje ainda temos outras possibilidades que são empresas como o YouTube, com o YouTube Filmes, o Itunes ou mesmo a Amazon, que têm disponibilizado alguns filmes online, por preços justos. Vale ficar de olho!

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BARONESA (JULIANA ANTUNES, 2016)

O filme é de uma jovem mineira de Belo Horizonte. É seu primeiro longa, fruto de uma imersão de seis meses na comunidade Juliana, onde foi filmado, patrocinado com os recursos do programa Filme Minas. Baronesa acompanha a história de duas amigas pobres, Andreia e Leidiane. A primeira faz planos para sair da favela onde moram. A segunda cuida dos filhos enquanto o marido está preso. O filme se propõe como híbrido (mistura de ficção e documentário) e é parte de um conjunto de obras contemporâneas que tem colocado em xeque as nossas ideias de real, ficção, encenação, e ainda aborda temas tabus, como maternidade, violência e abuso infantil. Aqui, as mulheres são as protagonistas, e os homens, coadjuvantes.

DIVINAS DIVAS (LEANDRA LEAL, 2016)

É o primeiro filme dirigido pela atriz Leandra Leal, que carrega um grande carinho pela sua obra. Divinas Divas é um documentário sobre a primeira geração de travestis do Rio de Janeiro, que se apresentava em um teatro que pertencia ao avô da atriz. Leandra entrevista as cantoras, dançarinas e atrizes, enquanto são preparadas para um último espetáculo no teatro, com todas juntas, completando 50 anos de carreira no palco. Cheio de causos divertidíssimos, o filme questiona a forma tabu como elas são vistas pela sociedade e exalta o íntimo de cada uma delas, já todas na faixa de seus 70 e poucos anos.

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QUE HORAS ELA VOLTA? (ANNA MUYLAERT, 2015)

Regina Casé interpreta a empregada doméstica de uma família de classe média alta de São Paulo, que mora na casa dos patrões e cuida do filho do casal. Mas, para isso, teve que deixar sua filha, Jéssica, no nordeste, para ser criada pela família.  Jéssica está vindo a São Paulo para fazer o vestibular e passa uns dias com a mãe. Anna Muylaert dirige esse filme, que é um brilhante retrato do encontro (ou embate) de classes sociais no Brasil. A filha passa a questionar à mãe seu lugar ali, e a ocupar lugares “proibidos” na casa da família, que começa a se incomodar com sua presença.


ELENA
(PETRA COSTA, 2012)

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Um dos mais belos documentários brasileiros, este é um filme sobre a busca da diretora, Petra Costa, por sua irmã, Elena. Quase como um filme-carta, Petra narra uma carta a sua irmã, compondo o que podemos chamar de “documentário em primeira pessoa”. São imagens de arquivo, entrevistas e caminhadas por Nova Iorque, em busca de descobrir quem realmente foi Elena, e que poeticamente vão se misturando para questionar até mesmo quem é Petra. O filme perpassa uma questão muito séria e que por vezes é tratada de forma banal na sociedade – só não vou dizer o que é para não dar spoiler!

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